Drummond e Quintana: a história do banco de bronze na Praça da Alfândega
- Guilbert Trendt
- 17 de nov. de 2024
- 3 min de leitura

Sentado confortavelmente em um banco na praça da Alfândega, a perna direita cruzada sobre a esquerda, o corpo levemente curvado para a direita, Mário Quintana observa atentamente Carlos Drummond de Andrade, que de pé lê algo ao amigo. O mineiro recitaria seus próprios escritos? Estiveram os dois naquela praça de Porto Alegre? Por que Drummond?
O monumento em homenagem à literatura, instalado em 2001 durante a Feira do Livro, revela não só a amizade entre os poetas, mas também a dos artistas que assinam a obra: Xico Stockinger e Eloisa Tregnago.
Com prazo de cerca de cinco meses para elaborar o monumento encomendado pela Câmara Riograndense do Livro, a dupla trabalhou intensamente no ateliê. Durante o processo Xico adoeceu de uma gripe e Eloisa seguiu os trabalhos sozinha. “Quando ele voltou ao trabalho, olhou a obra e disse que estava praticamente pronta”, conta a escultora. Seu nome ao lado do de Xico marcadas na lateral do banco de bronze foi uma surpresa: “ele me chamou e disse ‘olha aqui’”. O nome, como coautora, a emocionou, ainda que já soubesse do tamanho da generosidade do amigo.
Lúcido e ativo nas criações, Xico Stockinger morreu em 2009, aos 91 anos. O ateliê e parte do que compunha a vasta obra do talento dele ficou com Eloísa, assim como o cachorro Alemão, também já falecido.
Eloísa guarda ainda uma segunda peça da cabeça do Drummond, feita com o material que sobrou do monumento e o molde original. Pendurada na parte externa do ateliê, a abertura do interior da peça já serviu de abrigo para morcegos, conta.
O banco e os poetas
Em um dos almoços entre intelectuais, que o bibliógrafo Waldemar Torres organizava de forma periódica em Porto Alegre, o assunto chegou à mesa: como uma praça que abriga um evento voltado à literatura desde 1955 ainda não possuía um monumento em homenagem ao livro ou escritor? A questão ganhou corpo entre o grupo, frequentado por nomes como Armindo Trevisan e Sergio Faraco – patrono da Feira do Livro deste ano.
Naquele ano, Carlos Drummond de Andrade completaria 100 anos se estivesse vivo. “O Drummond, amigo pessoal de Quintana, vivia nesta praça. Então surgiu a ideia: quem sabe Carlos, o bom visitante, leia um poema para Mário?”, sugeriu Paulo Flavio Ledur, naquele ano presidente da Câmara Riograndense do Livro.
O financiamento da proposta, que custou R$ 58 mil , foi aprovado em abril pela Gerdau – que naquele ano também completaria seu centenário. Segundo Ledur, foram 15 minutos para a empresa aprovar.
A escultora Eloísa Tregnago conta que a ideia de existir o banco nunca foi questionada. “Sempre houve essa preocupação e esse desejo de que fosse uma obra com participação popular, colocá-la de modo acessível. Eles estão ali, discutindo literatura na praça, em meio ao sol e os passantes, com espaço no banco para alguém sentar", afirma Eloísa.
Carlos Drummond e Mário Quintana não foram projetados em tamanho real na peça. A dimensão foi levemente alongada para dar um sentido de monumentalidade.
Quanto ao livro que o autor mineiro segura entre as mãos, é uma lacuna para a imaginação de quem interage com a obra. “Isso nós deixamos para o espectador sonhar, adivinhar ou fazer conjecturas”, diz a escultora defendendo que a participação é parte da obra. E se essa obra fosse feita em 2024, o que Drummond estaria lendo, pergunto para a Eloísa. Ela prontamente responde: “estaria olhando o celular. Talvez as redes sociais”.
Fonte: Correio do Povo
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